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O Festival Folclórico de Parintins é muito mais do que uma disputa centenária entre os bumbás Garantido e Caprichoso. Ao longo de décadas, a festa na Ilha Tupinambarana tornou-se um dos principais espaços de articulação política do Amazonas, palco de alianças, inversões eleitorais e demonstrações de força que definiram governos e carreiras.
O festival nasceu em 1966 por iniciativa da Igreja Católica local, que organizou o primeiro evento justamente para encerrar as brigas entre brincantes que acompanhavam os bois pelas ruas da pequena Parintins. Com o crescimento da festa, a população passou a cobrar mais apoio dos gestores públicos, e a política encontrou ali um terreno fértil.
Políticos locais como os ex-prefeitos Gláucio Gonçalves, que acumulou dois mandatos na prefeitura, cadeira de vereador, quatro mandatos como deputado estadual e assento no Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM), e seu filho Enéas, também duas vezes prefeito, três vezes deputado estadual e secretário de Estado em duas gestões, construíram carreiras sólidas a partir da base política que o festival ajudou a consolidar. Raimundo Reis, duas vezes prefeito e duas vezes deputado estadual, seguiu trajetória semelhante.
O bumbódromo e a lenda de Amazonino
O ponto de virada veio no primeiro governo de Amazonino Mendes (1987-1990), com a construção do bumbódromo. A obra deu sede permanente ao festival e transformou Amazonino em figura quase mítica na ilha. Ele só perdeu uma eleição em Parintins, a última, em 2022, quando já enfrentava problemas sérios de saúde.
Além de garantir a estrutura física, Amazonino atraiu patrocínio privado para os bumbás. Sua equipe, liderada pelo então secretário de Cultura Robério Braga, convenceu executivos da Coca-Cola a adotar as cores azuis do Caprichoso no festival, algo inédito para a marca naquele momento.
Amazonino também recebeu o presidente Fernando Henrique Cardoso em Parintins, em fevereiro de 2000, quando FHC escolheu a ilha para a abertura do Ano Letivo nacional. O presidente prometeu retornar em junho para o festival, mas a visita não aconteceu. A versão mais difundida atribui a ausência à reação da então primeira-dama, Ruth Cardoso, diante de uma foto de FHC e Amazonino observando a cunhã-poranga do Garantido, Alessandra Brasileiro. Se é fato ou folclore, o leitor pode julgar.
Eduardo Braga, Lula e a transmissão nacional
No governo de Eduardo Braga, o investimento estadual em Parintins ganhou nova dimensão. A administração pública passou a se transferir integralmente para o município durante a semana do festival, prática que persiste até hoje, mesmo em órgãos sem relação direta com o evento.
Braga também convenceu o presidente Luís Inácio Lula da Silva a visitar a festa. No dia 28 de junho de 2003, pela primeira vez na história, um presidente assistiu às apresentações de Garantido e Caprichoso dentro do bumbódromo.
Em 2007, no segundo governo, Braga utilizou o festival como instrumento de pressão política. O governo estadual comprou os direitos de transmissão e os revendeu por licitação ao Grupo Bandeirantes. O edital exigia transmissão nacional e na íntegra, condição que excluía a emissora local então detentora dos direitos, crítica ao governo.
Convenções, trocas de candidatos e o peso do festival eleitoral
Durante anos, o calendário do festival coincidiu com o período de convenções partidárias em anos eleitorais, fusionando festa e política de forma ainda mais direta. Em 2012, enquanto as atenções se voltavam para Garantido e Caprichoso, o grupo do então governador Omar Aziz trocou a candidata à prefeitura de Manaus, a deputada Rebecca Garcia, pela senadora Vanessa Grazziottin. A mudança ocorreu no dia da festa dos visitantes e encerrou a candidatura de Rebecca, que até então era vista como competitiva, mas foi afetada pelo vazamento de conversas telefônicas privadas.
Na eleição suplementar de 2017, foi em Parintins que se formou a chapa com o senador Eduardo Braga e o ex-deputado federal Marcelo Ramos, que em 2014 havia defendido publicamente que Braga deveria responder pelos “pecados” de governos anteriores. Nas mesmas conversas, Omar Aziz bloqueou a candidatura do então governador em exercício David Almeida, que presidia a Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) e se articulava para disputar o pleito. Omar negou ao PSD, partido de David, o apoio necessário para a candidatura avançar.
O episódio voltou à tona no atual processo sucessório, quando David Almeida recuou no apoio a Omar e entrou ele próprio na disputa pelo governo, concorrendo com Wilson Lima, cujas duas gestões foram marcadas por atrito com o prefeito de Parintins, Bi Garcia, alinhado a outros grupos políticos.
Em seis décadas, o festival saiu das ruas de uma cidade pequena para se tornar um dos maiores espetáculos folclóricos do mundo, e a política amazonense aprendeu cedo que quem domina o bumbódromo tem vantagem fora dele também. Saiba mais sobre a história do festival no portal oficial da Prefeitura de Parintins e no site da Secretaria de Cultura do Amazonas.
Glossário
- Bumbódromo: Arena construída especificamente para o Festival Folclórico de Parintins, inaugurada no governo Amazonino Mendes.
- Cunhã-poranga: Personagem feminina do boi-bumbá que representa a mulher indígena; um dos itens avaliados no festival.
- TCE-AM: Tribunal de Contas do Estado do Amazonas, órgão de fiscalização das contas públicas estaduais.
- Aleam: Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas.